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Falando de cabelo

Quando eu era criança eu descobri que deveria-se passar o shampoo duas vezes no cabelo. Lembro que, quando li o rótulo, dei um escândalo com a minha mãe porque ela estava me escondendo isso, afinal, a culpa era dela, que criança lê o rótulo de shampoo ou condicionador? Continuei passando o shampoo uma vez só. Desenvolvi sozinha a teoria de que eles inventaram isso porque a gente geralmente usa mais condicionador do que shampoo, aí, usando o shampoo duas vezes, eles acabam ao mesmo tempo.

Nunca fui dessas que se entregou ao consumismo, que acredita em tudo que lê na embalagem ou vê na propaganda. Nunca achei que a Xuxa usava mesmo Monange ou a Angélica e o Hulk, Elséve. Compro muita roupa, é verdade, mas não ligo para marcas e nem pago caro em nada que não pareça valer realmente mais ainda que a etiqueta. Comprei meu primeiro sapato da Schultz há mais de 10 anos em uma liquidação. Ela ainda estava caro, mas parecia valer bem mais (tava com 70%). Eu não sabia o que a marca significava. Comprei porque era alto e lindo. Eu era baixinha e feia. Talvez por isso tenha demorado tanto para dar o meu primeiro beijo na boca.

Eu pintei o o cabelo a primeira vez antes de dar o meu primeiro beijo na boca. Lembro muito bem do dia que pintei o cabelo, era o final da Copa do Mundo da França de 98. Na final: Brasil e França. Eu estava assistindo o jogo sozinha no quarto. Cabelos bem vermelhos, calça de moletom azul e blusa branca. Quando o jogo acabou eu chorei, disse que tinha sido mal agouro eu estar vestida com as cores da França. Minha mãe riu, disse que o universo não estava preocupado com uma menina de 12 anos que tinha acabado de colorir os cabelos para que a culpa fosse minha. A partir daí me pareceu mais sem sentido ainda lavar os cabelos com shampoo duas vezes. Não queria que a tinta saísse rápido. Aliás, nessa época eu ainda pintava os cabelos com shampoo.

Hoje em dia é comum ver por aí meninas com luzes californianas a partir dos 7 anos. Na minha época não era. A gente beijava na boca cedo, pintava o cabelo tarde e transava mais tarde ainda. Eu fiz tudo ao contrário. Beijei na boca no ano seguinte. Eu tinha 13 e ele 17. Hoje olhando parece absurdo. São 4 anos de diferença, e nessa idade 4 anos fazem toda diferença! Eu não deixaria minha filha pintar os cabelos antes dos 15 anos e se descobrisse que ela beijou na boca um cara de 17 anos, antes de ter completado 15, eu ficaria possessa!

Já era e ainda é comum crianças de 12 anos beijando na boca. A partir daí não acho estranho, é estranho antes disso. Mais estranho ainda são as meninas que já estão grávidas nessa idade. Perdi a virgindade com 15 anos e antes mesmo de beijar na boca eu já sonhava que perderia a virgindade no dia do meu aniversário de 15. Afinal, não é nesse dia que “viramos mocinhas”? Pensava nisso antes mesmo de saber o que significava. Não me arrependo de nada. Brinquei na rua com os meninos até os 13, sem malícia. Perdi a virgindade quando meu corpo já estava preparado para sentir tudo e a minha mente estava em pleno desenvolvimento para entender tudo. Agora ninguém entendia que eu precisava pintar o cabelo.

Eu era loira, loira dos cabelos lisos – falando assim você não acredita que eu era  feia, eu era uma criança linda e até alta pra idade, apesar de gordinha, mas nesse período dos 13 anos as crianças gordinhas não ficam mais engraçadinhas, porém era por causa dos meus cabelos que eu me sentia feia. Dos 12 pros 13 anos, meu cabelo começou a enrolar e crescer mais escuro. Eu não queria pintar os cabelos de loiros, pois quando a raiz começasse a crescer escura novamente as pessoas iriam dizer que eu pintava os cabelos. Já que era para dizerem isso, que falassem com propriedade!

Agora os lisos só voltaram a aparecer no ano seguinte. Fui descobrir que “secador + escova + força no braço = cabelos lisos” na formatura da oitava série. Isso certamente mudou a minha vida quando eu mudei de colégio para o ensino médio. Eu era uma das únicas meninas que pintavam os cabelos, eram lisos e de um vermelho bem brilhoso. Não era a menina mais bonita da escola, na verdade, ainda estava longe disso, mas me sentia bonita, estava mais magra e comecei a namorar um dos meninos mais populares do colégio.

Hoje ele está gordo e feio. Na época muitas pessoas não entendia o que ele via em mim. Hoje eu não sei o que eu via nele. Ele mudou pouco, só deu uma engordada, mas a cara é a mesma. Naquela época eu e as demais meninas o achávamos bonito, hoje é consensual que ele é estranho. Eu? Continuo com os cabelos vermelhos e lisos. Naquela época eles me deixavam mais velha, hoje me deixam mais nova. Eles também voltaram a serem lisos naturalmente – até faço uma dessas escovas progressivas duas vezes no ano, mas a raiz é lisa naturalmente – porém, aos 26 para 27 anos eles já não crescer mais escuros nem loiros. São fios castanhos claros e outros já brancos. Minha mãe tem cabelos brancos desde os 22 anos, eu ainda ganhei 3 anos de vantagem. Acho que foi por isso que ela não implicou quando a filha de 12 anos disse que queria pintar os cabelos.

Essa foto tem 5 anos, mas os meus cabelos estão quase nesse tamanho de novo. A cor ainda é a mesma e agradeço pela pele de pêssego que quase não mudou nesses anos =)


Raio X

Algumas dores são difíceis de explicar, parece que já cicatrizaram há tempos, já não há nem mais sinal da cicatriz, mas quando você mete o dedão na superfície sente aquela pontada de dor, como se a ferida ainda estivesse se curando.

Eu tenho uma imunidade bem alta para esse tipo de coisa. Minhas amigas sempre comentam que não me vêem reclamando, choramingando pelos cantos por causa de um amor que se foi. E realmente não sofro mesmo. Aliás, sofro por nunca mais que três semanas. Posso passar por um período de loucuras, sumir do cenário e aparecer com um novo corte de cabelo, começar outro relacionamento sem futuro apenas para me distrair… Mas não sofro, não deito na cama para dormir e fico pensando em como foi bom, como poderia ter sido melhor, como sinto falta… Sinto aquela dor momentânea que logo passa e a vida volta ao normal novamente.

Já sofri, confesso. Até o meu primeiro namoro terminar eu sofria muito por causa dos homens. Com ele eu percebi que não se deve esperar muito de uma relação mesmo. Sofri por quase um ano depois do término e o observei sofrendo por uns três meses, mas não havia volta, o sofrimento seria maior juntos. Não sofri com o término de um pseudo-casamento de cinco anos, nem com o “fim” do relacionamento mais atual (a gente ainda se pega e é amigo, mas a esperança de um namoro e o amor que levava ao sofrimento por saudades ou outras coisas morreram de um dia para o outro, sem pena, apenas porque assim eu decidi).

Qual é o segredo? Simples, apenas pense que ele não é a pessoa certa pra você. Você vai ficar sofrendo pela pessoa errada, amando a pessoa errada, se martirizando e se impedindo pela pessoa errada? Se fizer isso a pessoa certa passa e você nem vê. E acredite, se você está sofrendo por ele(a), é a pessoa errada, a pessoa certa não te faz sofrer.

Mas tudo isso foi apenas uma explicação sem sentido para tentar justificar o injustificável do primeiro parágrafo. Se eu sei tudo isso, se eu já não penso mais, já não sinto mais e já não sofro mais (ah, e por esse eu sofri, foram as três semanas mais longas da minha vida), porque ainda dói da mesma forma que doía? É como um membro fantasma, que já não pertence mais ao seu corpo, mas quando alguma coisa acontece você sente como se ele estivesse ali, no mesmo lugar. E acredite, ele é a pessoa errada, está estampado na testa dele.

Não basta olhar para ele. Não penso mais nele como homem, não sinto falta, saudades, amor… nada! Sou perfeitamente capaz de dividir o mesmo ambiente, vê-lo com outra garota, conversar como amigos (que acho que somos)… mas quando a gente conversa sobre o assunto, aquela dor das três semanas volta a assolar o meu peito como se nunca tivesse ido embora e permanece por um dia me maltratando.

Penso que talvez seja mais fácil cortar o membro fantasma de vez da minha vida. Mas me preocupo com ele como me preocupo sempre com as pessoas que tenho carinho. Gosto de saber como meus amigos estão, se estão bem e se eu posso fazer algo para ajudar. Cheguei a pensar que talvez, por esse excesso de anticorpos que não me deixam sofrer, talvez a ferida não tenha se curado como deveria. Como uma cárie que não foi removida por completo e o dente foi selado com aquele resquício ali. Apenas abrindo novamente o dente e arrancando mais profundo que ela será extinta.

Mas para achar uma cárie assim é preciso um RaioX, olhar para dentro de si mesmo é complicado demais. Não sei o que fazer ou por onde começar. Não adianta tentar resolver a dois, essa é uma coisa de mim para mim mesma, mas estou aceitando diagnósticos…

 


Revelações sobre o Rio de Janeiro

Arcos da Lapa

Vou começar justificando a falta de posts recentes. É o twitter minha gente. Tudo que tenho para dizer, manifestar indignação, comentar… resumo em 140 caracteres ou em mais twittadas e mando na hora via @fafahlongo.

Mas esse assunto não poderia ser compilado em tão poucos caracteres. Ainda não contei nem para alguns dos amigos próximos, mas estou no Rio de Janeiro. Não sei ainda se uma mudança definitiva e nem vou comentar o trabalho (não é nada ilegal ou imoral, é uma coisa que gosto e me orgulho, mas melhor não falar nada ainda). O palco é o centro da cidade, o centrão mesmo, pertinho da minha querida Lapa, com vista para o Teatro Municipal, quase ao lado da imponente Petrobrás.

Antes de trazer as malas, procurei por mordia pela internet e tive minha primeira revelação: “Não confie no Google Maps”. Há sempre um caminho mais fácil, mais perto ou menos perigoso para chegar ao seu destino do que aqueles que ele indica. Tão pouco confie nos anúncios de quartos, vagas, etc. Se é em morro e diz que é n começo do morro, não é. Banheiros e cozinhas coletivas em “vilas” não são legais. Não adianta, dividir espaço com pessoas desconhecidas nunca vai ser simples e fácil.

Digo por experiência, além da que já tinha adquirido no movimento estudantil. Estou dividindo a casa com 17 mulheres, uma casa gigante pelo menos, daquelas estilo coloniais, com o teto bem alto e cômodos amplos. Mas mesmo assim, apenas dois banheiros e uma cozinha. As meninas são legais. No meu quarto somos cinco, uma baiana que largou a faculdade de administração na Bahia para trabalhar em uma lanchonete, acreditando nas promessas de um ex namorado carioca. Uma carioquinha linda e comunicativa, uma mineira sonhadora, lutadora, sensível e bipolar, e a outra esteve doente e não pude conhecer melhor.

As outras meninas não conheci direito também, mas são de todas as partes do Brasil, sei de uma curitibana, uma de Resende, mais meninas de bairros do rio… e por aí vai. Não é precisamente a nossa versão do “American Dream” que tanta gente fala quando quer vir para o Rio. Aposto que todas elas quando mudaram para lá imaginavam o tal Rio de Janeiro que muitos me falam que é ilusão. A rotatividade na casa é tremenda, na verdade é apenas um lugar para conhecer gente para dividir um apartamento depois ou ficar até achar algo melhor, mesmo que sozinha. Depois de apenas um dia de trabalho saindo de Campo Grande eu decidi me mudar.

Queria mesmo algo mais perto da Lapa. Os locais mais baratos que vi eram em Santa Tereza. E aí vai a revelação número dois: “Santa Tereza não é centro!” E tão pouco dá par ir a pé de um ponto para o outro. Eu já conhecia a ladeira do carnaval, do bloco “Me enterra na quarta”, mas carnaval tudo é maravilhoso. Mesmo que a casa seja no início da subida (que nem é Santa Tereza ainda, ali quase na Riachuelo, em frente à Sinuca da Lapa), lá é o reduto dos marginais. Não há um momento do dia que eu passe ali em frente que não há várias pessoas mal encaradas conversando. Já vi polícia perseguindo pivete, mulheres oferecendo o corpo, usuários de drogas… tudo bem ali, nos primeiros números da rua, com vista da porta da Sinuca da Lapa, atravesso a rua para ir para casa só depois que passo aquele trecho.

Me foi dito que qualquer lugar do centro seria assim, começo a acreditar. Dizem que eu deveria ir para a Zona Sul. Além de mais caro, essas pessoas não compreendem o que EU quero do Rio de Janeiro. O meu Rio é este, da boemia da Lapa, dos eventos culturais no centro, das manifestações de movimentos sociais… eu não vim ao Rio pelas praias e boates da Zona Sul. Quando vou para Botafogo acabo na Sinuca da Bambina, que é um pedacinho da Lapa jogado perto da praia.

Outro mito é de que o carioca é simpático, atencioso, povo simples… ao contrario dos neoliberalistas capitalistas de São Paulo. Mentira! Povo abusado e antipático! Informações erradas, má vontade e péssima oferta de serviços. O prédio que alugamos tem 21 andares. Até o 14º (estamos no 12º) temos apenas um elevador com risco de parar a qualquer momento. Os botões que chamam o elevador nem sempre funcionam e por vezes o carinha que controla o elevador para em todos os andares apenas para verificar se alguém entra. Em cada andar ele demora por volta de um minuto.

As pessoas não fazem quetão nenhuma de manter o cliente. Se você não gostar do serviço, alguém há de ficar satisfeito, ou pelo menos conformado. Quando me mudei, a locatária estava contando que tem um kitnet para alugar no valor de R$600,00. Quem estava comigo disse: “Mas esse valor para o Centro é muito alto, esse é o valor da kitnet que eu tinha em Botafogo”. Ela rebateu “A procura é muito grande, se alguém sai, logo encontro outro para pagar esse preço”, e ela não faz questão nenhuma da excelência do serviço. As 17 meninas jogadas pela casa quase não se conhecem e pouco interagem, não há regras firmes de boa convivência além de bilhetes espalhados pelas paredes lembrando de quem é a vez de tirar o lixo, que visitas não são permitidas, e aquelas coisas de lição de moral (se sujou, lave) que ninguém presta atenção. Com R$ 200,00 de casa menina dessas ela deveria oferecer uma governanta 24h e não uma faxina “pra inglês ver” semanal. Mas é a realidade. Em Barra Mansa, me lembro de uma casa muito bem localizada, grande, com uma cara bastante amigável, que a pessoa estava vendendo por cem mil. Até valeria, pelo tamanho e localização, mas vi a placa de “vende-se”na casa por pelo menos quatro anos. Hoje virou uma imobiliária. No interior, se você não presta excelência no serviço, alguém presta e você vai falir. Já perdi a conta de quantos bares, lojas, casas de show… que já vi falirem por lá. Até um Shopping inteiro!

Volto ao ponto que falo sempre com meus amigos, familiares, conhecidos e até desconhecidos em momentos de reclamação do tipo eu falo com estranhos”. O Brasil é deste jeito porque o brasileiro aceita, tem a mania de não reclamar, de não brigar pelos seus direitos. Nos EUA, qualquer coisa vira processo. Se alguma coisa que é direito do consumidor não é cumprida, logo vai ao tribunal, e a demora não é de anos como é aqui. O brasileiro tem preguiça de “rodar a baiana”, até na Bahia. O nordeste tem as piores ofertas de serviço, tanto que a maioria daqueles atendimentos telefônicos penosos de empresas de telefonia tem sede por aquelas bandas. Em Fortaleza chegamos a ver um local com placa de “servimos refeição” fechado para almoço. Quando começarmos a pelo menos xingar quem nos atende mal ficaremos menos extressados e podemos ser melhor atendidos, afinal, ninguém gosta de ser xingado. E o contrário também é válido. Devemos fazer propaganda quando bem atendidos em algum lugar, agradecer e voltar sempre que possível.

Bom, ainda estou em busca do meu “Brazilian Dream”, não tive ainda nenhum dos eventos culturais ou boemios que pretendo começar a frequentar por aqui e ainda estou em busca de um bom local para morar. Acho que encontrei algo de bom na internet, amanhã devo verificar se é mais um mito ou se o local é real, mas ainda assim precisarei de alguém para dividir. Aqui na Riachuelo mesmo, alguém se habilita?


Sociedade Alternativa

A última viagem de congresso que eu fiz virou um post de quase dez laudas. Desta vez não vou me repetir por três motivos: Vai ficar cansativo; algumas coisas eu estava bêbada demais para lembrar e outras não vale contar. Quero falar apenas de sentimento desta vez. Experimentei sentimentos que eu nem me lembrava mais que existiam. Conheci pessoas as quais me apeguei de tal forma, em tão pouco tempo e que me fizeram questionar vários pontos da minha vida.

O primeiro deles é a amizade. Lá eu não parava de pensar nos amigos daqui e agora aqui não esqueço por um minuto as pessoas que deixei lá. Aprendi a valorizar os abraços porque nunca sabemos quando eles se transformarão em mensagens de texto. É incrível como pessoas de diferentes partes do Brasil podem ter hábitos tão parecidos e personalidades que se encaixam e se completam como um quebra-cabeças.

Outro ponto foi o pudor, a sexualidade. Ver os homens héteros usando saias em solidariedade à causa homossexual, participando de roda de amor livre e aceitando selinhos de homos que nem conhecem apenas para mostrar que não há preconceito, que um beijo é um cumprimento como um aperto de mão ou um abraço. No mundo das mulheres isso é até aceitável, temos menos preconceito, mas ver homens com atitudes como essas é uma das maravilhas modernas.

Isso me lembra de outro ponto, a solidariedade. O espaço de auto-organização estudantil vivenciado no ENECOM pode não ter sido 100%, mas tenho certeza que em um congresso da UNE se algo do tipo fosse tentado não chegaria nem nos 30%. As pessoas de fora do encontro se espantavam com a colaboração, com a ajuda mútua e desinteressada que muitos estudantes prestavam uns aos outros. No mundo de hoje a solidariedade é uma característica admirável.

Pude observar as opressões mais de perto, não participei dos Grupos de Vivência, mas muitos deles chegaram até nós e pudemos conhecer suas histórias, não através da grande mídia que os marginaliza, nem da mídia alternativa que os exalta, mas de suas próprias bocas e mãos. Renato Roseno (PSol) foi o melhor palestrante e nos deu soluções concretas para tornar a nossa contra-hegemonia realmente hegemônica.

Teve também o amor… O amor é livre! Disse que amava tantas pessoas que conheci por uma semana… e realmente as amo! Uma característica que eu já havia adquirido antes era classificar as pessoas em boas e más, não em legais ou chatas, bonitas ou feias… Se a pessoa é boa eu deixo se aproximar, se tem aquela aura carregada, se traz mesquinhez no olhar… passe longe por favor! E essa bondade desimpedida, essa alegria contagiante, esse reconhecimento dos olhos e dos colos me fez amar tanta gente! Homens, mulheres, brancos, negros, homossexuais, héteros, bis… Amar mesmo, com a alma, não no sentido carnal da palavra.

Em janeiro havia aprendido a respeitar as diferenças e os espaços, nesses últimos congressos consegui colocar em prática. Não me chateei com nada! Nem com atos, nem com palavras… o que acontece no congresso fica no congresso! Foi tão difícil compreender isso em janeiro, hoje acho que consigo até dar uma aula…

Outra figura que vai mudar para sempre a minha vida é a professora de fanzine, Fernanda Meireles. Com toda sua energia e paixão e suas frases de postais. A melhor delas é seu lema “Converse com estranhos”. Quer frase melhor para descrever um congresso como o ENECOM? Todo mundo que tiver a fitinha amarela é seu amigo! No da UNE é mais restrito, era todo mundo que tivesse um adesivo da Kizomba.

Vivi por 21 dias em uma espécie de Sociedade Alternativa, da qual nunca mais queria sair. Principalmente no ENECOM, onde sua força política não é importante, nem sua sexualidade ou condição financeira, vale apenas o tamanho do seu sorriso e quanto tempo aguenta acordado. Esse é o mundo ao qual eu pertenço e se cada pessoa caminhando sobre a Terra já tivesse vivenciado uma experiência dessas, tenho certeza que o mundo seria um lugar melhor para se viver. O perrengue para tomar banho te faz valorizar a água, a fila para a refeição te faz valorizar a comida, o pouco tempo de duração te faz valorizar as companhias encontradas… Você poderia dizer que o fim te faz valorizar o durante… mas eu não queria o fim… eu queria um ENECOM cíclico.

Na verdade eu queria uma sociedade desconstruída que vivesse dessa forma alternativa para sempre. Eu queria ser Arembepe (BA), naquela vila hippie, com aquele lago de águas quentes e aquela recepção calorosa aos estranhos. Eu queria o sorriso de Fernanda convidando gente estranha para sua casa e explicando a inspiração de seus trabalhos. Eu queria a animação de Lelê em sua barraca que sempre cabe mais um. Eu queria os abraços de Negão que nos acompanharam até o último minuto. Eu queria os carinhos de Bruno e Aline e todas as danças de Marisinha. Os beijos molhados de Fernando que acabariam com a seca do Ceará! A hospitalidade de B2 e cada abraço apertado daqueles machos! Eu queria cada uai dos mineiros e todas as cervejas geladas que eu nunca tive! Eu queria dividir cada Tiquira e cada cigarro com todo mundo. Queria que cada cidadão deste mundo tivesse um pouquinho de Michell, Bell, Amanda, Maurício, Cevs, Caio, Ju, Nicolas, Chris… entre outras pessoas fantásticas que deixei para trás e espero reencontrar lá na frente, mesmo que não dentro delas mesmas.

Eu queria que todo dia fosse o dia perfeito, com um painel pela manhã, uma praia, uma roda de “Eu nunca”, cerveja e camarão, o sol mais que gigante se afogando no mar de Mucuripe e risadas em todos os sotaques até que as estrelas já tivessem tomado todo o céu. Vou levar tudo para a minha vida!

Pra fechar, a frase que amo:

camisa kizomba


Folhas…

Sempre que vou me referir a pessoas que passam pela minha vida e se vão, tão rápido quando apareceram, chamo-as de folhas. Uma alusão a um texto bem circulado na net que explica que os amigos são como folhas na árvore de nossas vidas, fala das estações do ano e blá, blá, blá… Tenho até um grupo de contatos no MSN com esse nome. Estava almoçando hoje em um botequinho aqui na Vila, sozinha como sempre, depois aquele cigarro com a perna pra cima da cadeira e observando a paisagem. Pela minha cabeça só passava “aiai, poderia ser um marzão na minha frente, vou largar tudo isso e abrir uma barraquinha de suco na praia!” Uma moça pede para acender o cigarro e resolvo dividir meus pensamentos com ela. Um cigarro, vento fresco e um papo, só falta mesmo o mar… mais uma folha na minha vida que nem vou me lembrar se ver novamente e nem ela vai se lembrar daquela mocinha ruiva cheia de idéias de liberdade na cabeça.

Costumo brincar (mas é sério) que sempre quis ser jornalista, até entrar na faculdade de jornalismo. A sociedade taxa mal as pessoas. “Mas você tem faculdade e quer vender suco na beira da praia?” a folha me perguntou. Poizé, além de jornalista ganhar mal, nada compra a minha paz… Respirar o cheiro do mar, tomar suco com bastante gelo e sem açúcar, brisa, várias folhas passando pelo meu quiosque, um bom papo, um bom papo em outro idioma, uma cantada aqui e ali, por do sol na linha do horizonte, fim de expediente, o dinheiro superior ao da profissão de jornalismo no final e pagamento diário… Qualquer prazer me diverte!

sucos-praia

Não me arrependo da faculdade não, adoro a formação e não pretendo parar por aqui, ano que vem vou tentar UFF, produção cultural ou estudo de mídia (zuei mas adorei o que ouvi do curso), mas trabalhar na área, sinceramente, não estou mais com saco! Quero paz na cabeça e no espírito, escrever sobro o que eu quero, na hora que eu estou com vontade no meu blog e em outros tantos que a internet me permite criar. Agora obrigação, quero só com as laranjas, goiabas, maçãs, uvas, abacaxis…


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