
Vou começar justificando a falta de posts recentes. É o twitter minha gente. Tudo que tenho para dizer, manifestar indignação, comentar… resumo em 140 caracteres ou em mais twittadas e mando na hora via @fafahlongo.
Mas esse assunto não poderia ser compilado em tão poucos caracteres. Ainda não contei nem para alguns dos amigos próximos, mas estou no Rio de Janeiro. Não sei ainda se uma mudança definitiva e nem vou comentar o trabalho (não é nada ilegal ou imoral, é uma coisa que gosto e me orgulho, mas melhor não falar nada ainda). O palco é o centro da cidade, o centrão mesmo, pertinho da minha querida Lapa, com vista para o Teatro Municipal, quase ao lado da imponente Petrobrás.
Antes de trazer as malas, procurei por mordia pela internet e tive minha primeira revelação: “Não confie no Google Maps”. Há sempre um caminho mais fácil, mais perto ou menos perigoso para chegar ao seu destino do que aqueles que ele indica. Tão pouco confie nos anúncios de quartos, vagas, etc. Se é em morro e diz que é n começo do morro, não é. Banheiros e cozinhas coletivas em “vilas” não são legais. Não adianta, dividir espaço com pessoas desconhecidas nunca vai ser simples e fácil.
Digo por experiência, além da que já tinha adquirido no movimento estudantil. Estou dividindo a casa com 17 mulheres, uma casa gigante pelo menos, daquelas estilo coloniais, com o teto bem alto e cômodos amplos. Mas mesmo assim, apenas dois banheiros e uma cozinha. As meninas são legais. No meu quarto somos cinco, uma baiana que largou a faculdade de administração na Bahia para trabalhar em uma lanchonete, acreditando nas promessas de um ex namorado carioca. Uma carioquinha linda e comunicativa, uma mineira sonhadora, lutadora, sensível e bipolar, e a outra esteve doente e não pude conhecer melhor.
As outras meninas não conheci direito também, mas são de todas as partes do Brasil, sei de uma curitibana, uma de Resende, mais meninas de bairros do rio… e por aí vai. Não é precisamente a nossa versão do “American Dream” que tanta gente fala quando quer vir para o Rio. Aposto que todas elas quando mudaram para lá imaginavam o tal Rio de Janeiro que muitos me falam que é ilusão. A rotatividade na casa é tremenda, na verdade é apenas um lugar para conhecer gente para dividir um apartamento depois ou ficar até achar algo melhor, mesmo que sozinha. Depois de apenas um dia de trabalho saindo de Campo Grande eu decidi me mudar.
Queria mesmo algo mais perto da Lapa. Os locais mais baratos que vi eram em Santa Tereza. E aí vai a revelação número dois: “Santa Tereza não é centro!” E tão pouco dá par ir a pé de um ponto para o outro. Eu já conhecia a ladeira do carnaval, do bloco “Me enterra na quarta”, mas carnaval tudo é maravilhoso. Mesmo que a casa seja no início da subida (que nem é Santa Tereza ainda, ali quase na Riachuelo, em frente à Sinuca da Lapa), lá é o reduto dos marginais. Não há um momento do dia que eu passe ali em frente que não há várias pessoas mal encaradas conversando. Já vi polícia perseguindo pivete, mulheres oferecendo o corpo, usuários de drogas… tudo bem ali, nos primeiros números da rua, com vista da porta da Sinuca da Lapa, atravesso a rua para ir para casa só depois que passo aquele trecho.
Me foi dito que qualquer lugar do centro seria assim, começo a acreditar. Dizem que eu deveria ir para a Zona Sul. Além de mais caro, essas pessoas não compreendem o que EU quero do Rio de Janeiro. O meu Rio é este, da boemia da Lapa, dos eventos culturais no centro, das manifestações de movimentos sociais… eu não vim ao Rio pelas praias e boates da Zona Sul. Quando vou para Botafogo acabo na Sinuca da Bambina, que é um pedacinho da Lapa jogado perto da praia.
Outro mito é de que o carioca é simpático, atencioso, povo simples… ao contrario dos neoliberalistas capitalistas de São Paulo. Mentira! Povo abusado e antipático! Informações erradas, má vontade e péssima oferta de serviços. O prédio que alugamos tem 21 andares. Até o 14º (estamos no 12º) temos apenas um elevador com risco de parar a qualquer momento. Os botões que chamam o elevador nem sempre funcionam e por vezes o carinha que controla o elevador para em todos os andares apenas para verificar se alguém entra. Em cada andar ele demora por volta de um minuto.
As pessoas não fazem quetão nenhuma de manter o cliente. Se você não gostar do serviço, alguém há de ficar satisfeito, ou pelo menos conformado. Quando me mudei, a locatária estava contando que tem um kitnet para alugar no valor de R$600,00. Quem estava comigo disse: “Mas esse valor para o Centro é muito alto, esse é o valor da kitnet que eu tinha em Botafogo”. Ela rebateu “A procura é muito grande, se alguém sai, logo encontro outro para pagar esse preço”, e ela não faz questão nenhuma da excelência do serviço. As 17 meninas jogadas pela casa quase não se conhecem e pouco interagem, não há regras firmes de boa convivência além de bilhetes espalhados pelas paredes lembrando de quem é a vez de tirar o lixo, que visitas não são permitidas, e aquelas coisas de lição de moral (se sujou, lave) que ninguém presta atenção. Com R$ 200,00 de casa menina dessas ela deveria oferecer uma governanta 24h e não uma faxina “pra inglês ver” semanal. Mas é a realidade. Em Barra Mansa, me lembro de uma casa muito bem localizada, grande, com uma cara bastante amigável, que a pessoa estava vendendo por cem mil. Até valeria, pelo tamanho e localização, mas vi a placa de “vende-se”na casa por pelo menos quatro anos. Hoje virou uma imobiliária. No interior, se você não presta excelência no serviço, alguém presta e você vai falir. Já perdi a conta de quantos bares, lojas, casas de show… que já vi falirem por lá. Até um Shopping inteiro!
Volto ao ponto que falo sempre com meus amigos, familiares, conhecidos e até desconhecidos em momentos de reclamação do tipo eu falo com estranhos”. O Brasil é deste jeito porque o brasileiro aceita, tem a mania de não reclamar, de não brigar pelos seus direitos. Nos EUA, qualquer coisa vira processo. Se alguma coisa que é direito do consumidor não é cumprida, logo vai ao tribunal, e a demora não é de anos como é aqui. O brasileiro tem preguiça de “rodar a baiana”, até na Bahia. O nordeste tem as piores ofertas de serviço, tanto que a maioria daqueles atendimentos telefônicos penosos de empresas de telefonia tem sede por aquelas bandas. Em Fortaleza chegamos a ver um local com placa de “servimos refeição” fechado para almoço. Quando começarmos a pelo menos xingar quem nos atende mal ficaremos menos extressados e podemos ser melhor atendidos, afinal, ninguém gosta de ser xingado. E o contrário também é válido. Devemos fazer propaganda quando bem atendidos em algum lugar, agradecer e voltar sempre que possível.
Bom, ainda estou em busca do meu “Brazilian Dream”, não tive ainda nenhum dos eventos culturais ou boemios que pretendo começar a frequentar por aqui e ainda estou em busca de um bom local para morar. Acho que encontrei algo de bom na internet, amanhã devo verificar se é mais um mito ou se o local é real, mas ainda assim precisarei de alguém para dividir. Aqui na Riachuelo mesmo, alguém se habilita?
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