Desde menina aprendi a viver na fantasia, bonecas, amigos imaginários, romances que duravam o tempo de uma dança de mãos na cintura e sem rostos colados. Um simples olhar ou toque nos cabelos já era motivo para recomeçar a sonhar com outro sentido, mas o mundo real nunca encenou meus roteiros.
Com o passar do tempo, os sonhos cresceram tanto que podia julgá-los reais, havia príncipes encantados às avessas, pilotando motos, com calças rasgadas e all stars de cano alto. E eu era a princesa reprimida, resgatada do alto da torre e das correntes de proteção.
Príncipes chegavam e desistiam. Não eram bons o suficiente… não agüentavam a pressão da realeza… desistiam no primeiro obstáculo… ou simplesmente eram ogros disfarçados por um feitiço que todos tentaram alertar, mas o amor sempre será cego.
Aprincesa conheceu um sapo, se apaixonou novamente, e ele virou um príncipe. Deixou-se levar pelo mundo, abandonou o castelo e foi brincar de casinha em uma nova terra encantada, onde tudo era diferente, inclusive as pessoas. Ninguém a ensinou que pessoas diferentes deveriam ser tratadas de forma diferente. Que fora do castelo o mundo era cruel e a engoliria. Conheceu madrasta má, grilo falante, gato de botas, irmãs boas, irmãs más… começou como súdita e estava prestes a voltar à corte naquela nova terra quando… percebeu que a posição que iria ocupar era de bobo da corte, e isso ela não poderia aceitar.
Voltou ao castelo, implorou pelo perdão do rei e foi reintegrada à realeza. Seu príncipe abandonou o reino distante e ocupou seu lugar de direito ao lado da princesa. O que ela não sabia era que o feitiço só durava enquanto havia amor verdadeiro entre os dois, e aos poucos ele foi voltando a ser sapo. Coachou, coachou, mas não conseguiu outro beijo sincero da princesa, que se isolou na torre novamente, desta vez por vontade própria.
O que a alegrava era cuidar do povo, se preparava para um dia assumir o trono e queria fazê-lo da melhor forma possível. Foi quando deixou de buscar um príncipe e encontrou um cavaleiro de armadura prateada. O brilho da armadura era tanto que a princesa se iludiu e iludiu o guerreiro acreditando que era amor.
Logo veio a guerra e o cavaleiro precisou partir. A princesa desolada se consolou nos braços dos covardes que não partiram para a guerra e terminou por se apaixonar por seu fiel escudeiro. Eles esperavam que o pior acontecesse na guerra, mas o cavaleiro retornou inteiro e com méritos. Quando o romance foi descoberto, a princesa recusou o trono e o escudeiro foi expulso da corte, sendo abrigado no vilarejo vizinho.
Passaram a viver vidas separadas e a ignorar a força de atração que os tomava. A princesa se apaixonou por um plebeu e lhe concedeu todas as honras dignas por seu amor, porém nunca o amou de verdade. Em um passeio pela praça, o escudeiro viu o sorriso nos olhos da princesa e lembrou que aquele olhar lhe pertencia. Pediu então que uma das camareiras que lhe entregasse um bilhete para que se reconciliassem.
A princesa acordou em alegria! O dia tão esperado finalmente viera e ela poderia explorar novas terras encantadas ao lado daquele a quem seu coração realmente pertencia. Estava casada do mundo, das pessoas, dos dedos apontados e da repressão do rei. Queria uma casa isolada no meio da floresta, onde poderia mais que brincar de casinha, ser mulher e não princesa… ter filhos, recolher lenha no inverno, banhar-se no rio no verão, colher flores na primavera e varrer o quintal no inverno.
Ao chegar ao local marcado, o escudeiro fez juras de amor eterno e a princesa se sentiu a mulher que desejava ser. Rompeu com o plebeu e o resto do mundo e fugiu para a casa na floresta com a qual tanto sonhava. Lá chegando percebeu que estava só, que tudo não passavam de promessas e que seu amor não estava disposto a deixar sua vida de escudeiro para com ela ficar.
Isso deixou a princesa desolada e ela fez uma promessa, que nunca mais acreditaria em homem nenhum. Já havia sido magoada antes, mas se julgava vitima de feitiçaria, afinal sapos e ogros não nascem naturalmente…
Com essa decisão tomada ela abandonou o reino de vez e rumou para a cidade grande. Se perdeu por tantas ruas, copos e bocas, que já não sabia mais onde começava sua vida e terminava a cidade. Se perdeu, se jogou… até que conheceu um homem real, sem status de realeza ou treinamento de guerra. Tinha sua promessa em mente mas, com tantos passeios pelo mundo ao seu lado, acabou por se entregar novamente.
Descobriu com ele uma nova forma de mágoa… recebeu carinho, prazer, tudo que sempre precisou, mas ele não foi capaz de amá-la. E o amor ainda era primordial na vida dessa princesa, então, depois de tantas aventuras, ela decidiu voltar novamente ao reino, coisa que não imaginava fazer nunca mais, mas dessa vez não recusou apenas o trono, mas todo status de realeza do qual tinha direito.
Foi viver e seu próprio reino, trabalhando como os plebeus e se divertindo nas tabernas. Reconquistou amigos e amigas, teve romances aleatórios, mas já tinha tomado uma decisão maior. Não apenas não acreditaria mais em homem nenhum, como também não se deixaria apaixonar nunca mais. Chegou a quase se entregar para um membro da corte, mas não poderia voltar ao castelo e logo o flerte foi interrompido.
Foi quando outro cavaleiro apareceu em seu caminho. Ela estava se sentindo triste com tantos relacionamentos vazios e ele lhe ofereceu uma carona em seu cavalo. Se amaram como dois pagãos por todo celeiro e a princesa/plebéia foi contra tudo que tinha prometido e entregou novamente seu coração nas mãos de alguém. Outro cavaleiro… da mesma tropa… as semelhanças eram muitas, mas eram as diferenças que a cativavam, eram as diferenças que a fizeram sentir por ele o que não havia conseguido sentir antes por ninguém.
Mas ela ainda era a mesma, nem princesa, nem plebéia. Apenas alguém em busca de se sentir-se viva a cada momento, alguém que não pensava nas conseqüências de seus atos, tanto que recusou tronos, glórias e amores. Fugiu tantas vezes do castelo, dos outros e de si mesma, e não souber perceber que era hora de parar de fugir e talvez voltar a sonhar com uma cabana nas montanhas. Não gostava de se sentir assim, tinha medo… Quando teve oportunidade, desembainhou a espada de seu cavaleiro e cravou contra o peito do mesmo, e ali sentou, observando o motivo de tanto amor sangrar, até a morte.
Hoje a princesa voltou a crer em magia. Busca em cada mago que conheceu uma poção mágica para trazer o amado de volta à vida, mas tem medo de que a poção o traga de volta com uma alma impura. Busca a poção, mas ao mesmo tempo quer encontrar alguém que já a tenha tomado para que tenha certeza de que seu cavaleiro ainda terá a mesma bondade no coração.
Segundo ato
(…)
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