Arquivo do mês: agosto 2011

Primeiro ato

Desde menina aprendi a viver na fantasia, bonecas, amigos imaginários, romances que duravam o tempo de uma dança de mãos na cintura e sem rostos colados. Um simples olhar ou toque nos cabelos já era motivo para recomeçar a sonhar com outro sentido, mas o mundo real nunca encenou meus roteiros.

Com o passar do tempo, os sonhos cresceram tanto que podia julgá-los reais, havia príncipes encantados às avessas, pilotando motos, com calças rasgadas e all stars de cano alto. E eu era a princesa reprimida, resgatada do alto da torre e das correntes de proteção.

Príncipes chegavam e desistiam. Não eram bons o suficiente… não agüentavam a pressão da realeza… desistiam no primeiro obstáculo… ou simplesmente eram ogros disfarçados por um feitiço que todos tentaram alertar, mas o amor sempre será cego.

Aprincesa conheceu um sapo, se apaixonou novamente, e ele virou um príncipe. Deixou-se levar pelo mundo, abandonou o castelo e foi brincar de casinha em uma nova terra encantada, onde tudo era diferente, inclusive as pessoas. Ninguém a ensinou que pessoas diferentes deveriam ser tratadas de forma diferente. Que fora do castelo o mundo era cruel e a engoliria. Conheceu madrasta má, grilo falante, gato de botas, irmãs boas, irmãs más… começou como súdita e estava prestes a voltar à corte naquela nova terra quando… percebeu que a posição que iria ocupar era de bobo da corte, e isso ela não poderia aceitar.

Voltou ao castelo, implorou pelo perdão do rei e foi reintegrada à realeza. Seu príncipe abandonou o reino distante e ocupou seu lugar de direito ao lado da princesa. O que ela não sabia era que o feitiço só durava enquanto havia amor verdadeiro entre os dois, e aos poucos ele foi voltando a ser sapo. Coachou, coachou, mas não conseguiu outro beijo sincero da princesa, que se isolou na torre novamente, desta vez por vontade própria.

O que a alegrava era cuidar do povo, se preparava para um dia assumir o trono e queria fazê-lo da melhor forma possível. Foi quando deixou de buscar um príncipe e encontrou um cavaleiro de armadura prateada. O brilho da armadura era tanto que a princesa se iludiu e iludiu o guerreiro acreditando que era amor.

Logo veio a guerra e o cavaleiro precisou partir. A princesa desolada se consolou nos braços dos covardes que não partiram para a guerra e terminou por se apaixonar por seu fiel escudeiro. Eles esperavam que o pior acontecesse na guerra, mas o cavaleiro retornou inteiro e com méritos. Quando o romance foi descoberto, a princesa recusou o trono e o escudeiro foi expulso da corte, sendo abrigado no vilarejo vizinho.

Passaram a viver vidas separadas e a ignorar a força de atração que os tomava. A princesa se apaixonou por um plebeu e lhe concedeu todas as honras dignas por seu amor, porém nunca o amou de verdade. Em um passeio pela praça, o escudeiro viu o sorriso nos olhos da princesa e lembrou que aquele olhar lhe pertencia. Pediu então que uma das camareiras que lhe entregasse um bilhete para que se reconciliassem.

A princesa acordou em alegria! O dia tão esperado finalmente viera e ela poderia explorar novas terras encantadas ao lado daquele a quem seu coração realmente pertencia. Estava casada do mundo, das pessoas, dos dedos apontados e da repressão do rei. Queria uma casa isolada no meio da floresta, onde poderia mais que brincar de casinha, ser mulher e não princesa… ter filhos, recolher lenha no inverno, banhar-se no rio no verão, colher flores na primavera e varrer o quintal no inverno.

Ao chegar ao local marcado, o escudeiro fez juras de amor eterno e a princesa se sentiu a mulher que desejava ser. Rompeu com o plebeu e o resto do mundo e fugiu para a casa na floresta com a qual tanto sonhava. Lá chegando percebeu que estava só, que tudo não passavam de promessas e que seu amor não estava disposto a deixar sua vida de escudeiro para com ela ficar.

Isso deixou a princesa desolada e ela fez uma promessa, que nunca mais acreditaria em homem nenhum. Já havia sido magoada antes, mas se julgava vitima de feitiçaria, afinal sapos e ogros não nascem naturalmente…

Com essa decisão tomada ela abandonou o reino de vez e rumou para a cidade grande. Se perdeu por tantas ruas, copos e bocas, que já não sabia mais onde começava sua vida e terminava a cidade. Se perdeu, se jogou… até que conheceu um homem real, sem status de realeza ou treinamento de guerra. Tinha sua promessa em mente mas, com tantos passeios pelo mundo ao seu lado, acabou por se entregar novamente.

Descobriu com ele uma nova forma de mágoa… recebeu carinho, prazer, tudo que sempre precisou, mas ele não foi capaz de amá-la. E o amor ainda era primordial na vida dessa princesa, então, depois de tantas aventuras, ela decidiu voltar novamente ao reino, coisa que não imaginava fazer nunca mais, mas dessa vez não recusou apenas o trono, mas todo status de realeza do qual tinha direito.

Foi viver e seu próprio reino, trabalhando como os plebeus e se divertindo nas tabernas. Reconquistou amigos e amigas, teve romances aleatórios, mas já tinha tomado uma decisão maior. Não apenas não acreditaria mais em homem nenhum, como também não se deixaria apaixonar nunca mais. Chegou a quase se entregar para um membro da corte, mas não poderia voltar ao castelo e logo o flerte foi interrompido.

Foi quando outro cavaleiro apareceu em seu caminho. Ela estava se sentindo triste com tantos relacionamentos vazios e ele lhe ofereceu uma carona em seu cavalo. Se amaram como dois pagãos por todo celeiro e a princesa/plebéia foi contra tudo que tinha prometido e entregou novamente seu coração nas mãos de alguém. Outro cavaleiro… da mesma tropa… as semelhanças eram muitas, mas eram as diferenças que a cativavam, eram as diferenças que a fizeram sentir por ele o que não havia conseguido sentir antes por ninguém.

Mas ela ainda era a mesma, nem princesa, nem plebéia. Apenas alguém em busca de se sentir-se viva a cada momento, alguém que não pensava nas conseqüências de seus atos, tanto que recusou tronos, glórias e amores. Fugiu tantas vezes do castelo, dos outros e de si mesma, e não souber perceber que era hora de parar de fugir e talvez voltar a sonhar com uma cabana nas montanhas. Não gostava de se sentir assim, tinha medo… Quando teve oportunidade, desembainhou a espada de seu cavaleiro e cravou contra o peito do mesmo, e ali sentou, observando o motivo de tanto amor sangrar, até a morte.

Hoje a princesa voltou a crer em magia. Busca em cada mago que conheceu uma poção mágica para trazer o amado de volta à vida, mas tem medo de que a poção o traga de volta com uma alma impura. Busca a poção, mas ao mesmo tempo quer encontrar alguém que já a tenha tomado para que tenha certeza de que seu cavaleiro ainda terá a mesma bondade no coração.

Segundo ato

(…)


A resistência e a cultura de aço nos anos de chumbo

Pra quem não teve a oportunidade de ler no Volta Cultural de julho – com alguns trechos extras que não couberam:

Em 26 de junho celebra-se o Dia Internacional em Apoio às Vitimas de Tortura, instituído pela ONU em 1987. Mesmo assim o Brasil levou mais 10 anos para caracterizar em seu código penal a lei que define a tortura como crime, mas todos os dias pessoas ainda são torturadas física e psicologicamente, indo contra a lei e contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), adotada pelos países ligados à ONU em 10 de dezembro de 1948. A história contada a seguir é relacionada com essas datas e tem como ponto alto a comemoração de 20 anos desta declaração. O cenário é a região Sul Fluminense, principalmente Barra Mansa e Volta Redonda; e os personagens, são atores, atrizes, religiosos, jornalistas… sobretudo cidadãos, inconformados com o desrespeito, abuso e privação impostos pela Ditadura Militar que vigorava na época.

Volta Redonda e Barra Mansa eram áreas de segurança nacional, pela presença da CSN na primeira e de um BIB (Batalhão de Infantaria Blindada) na segunda. Por serem cidades pequenas, a fiscalização e perseguição eram intensas. Os que pensavam diferente e agiam contra o governo imposto eram escoltados por veículos aparentemente civis, mas com militares em seu interior, que vigiavam onde iam, com quem falavam, o que faziam e a que horas voltavam para casa. Nessa época o teatro na região era fraco, até que um grupo de jovens decidiu unir a arte ao manifesto e encenar “Liberdade, Liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel.

Entre esses jovens, Bernardo Maurício (diretor de teatro até os dias de hoje) e Vicente Melo (atualmente jornalista da Fundação de Cultura de Barra Mansa). Vicente lembra que “assim começou a fermentar o bolo cultural da região, éramos um grupo de pessoas que nos encontrávamos não por objetivos individuais, mas sociais e culturais”. Grupo que já começou a sofrer as perseguições do exército. Para surpresa de todos, a peça foi aprovada pela censura, com restrição em alguns trechos. “Mas a gente não quis nem saber, encenou a peça completa”, revela Bernardo.

Com o talento e ousadia desses jovens, logo chamaram a atenção de um ícone regional dos Direitos Humanos, o Bispo Dom Waldyr – que havia chegado à cidade em 1966. Um grupo de bispos do Brasil decidiu realizar em 1968 uma celebração dos 10 anos da DUDH. Concomitantemente, um funcionário da CSN, com nove filhos, se vendo incapaz de sustentar a família, suicidou-se pulando no alto-forno principal da companhia. O episódio foi transformado em um monólogo, conhecido como “Zé do Forno”, representado na celebração por Bernardo maurício. “Queríamos mostrar como os direitos humanos eram desrespeitados de tal forma, que levavam um cidadão a acabar com a própria vida”, justifica D. Waldyr.

O palco foi o teatro Santa Cecília. “Havia aproximadamente 350 pessoas na celebração, mas praticamente era 50% era da imprensa, inclusive internacional, e a outra metade eram militares vigiando e registrando”, lembra Vicente. Além do “Zé do Forno”, Bernardo e Vicente representaram trechos do “Liberdade, Liberdade”. Dias depois, entra em vigor o temido AI5, que privou tantos da liberdade, entre eles nossos protagonistas. Bernardo foi preso em janeiro de 1969, em um passeio pelas ruas de Volta Redonda. Levado ao BIB, foi perguntado se sabia o porquê estava ali. “Eu não fazia ideia, foi quando me apresentaram uma pasta com imagens da celebração e me contaram que eu estava preso por ter feito parte daquilo”.

Bernardo conta que ficou preso por 67 dias, passou por 30 interrogatórios, mas não sofreu tortura física, apenas psicológica. “A maior tortura pra mim foi a privação da leitura, eu lia todos os dias”. Ele conta que, o teatro foi seu grande refúgio na carceragem, ele era capaz de deixar a imaginação fluir. “Eu brincava que era um fantasma da noite e assustava os sentinelas”, revela. Ele foi um dos últimos a serem solto, liberado antes apenas do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da época, Wilton Meira. Para ser preso, bastava ser suspeito, Bernardo conta o caso de seu irmão que foi preso no dia do casamento, que não era nem envolvido com a resistência à ditadura, mas pelo fato de ser seu irmão e de estudar no Rio já foi motivo para ser levado e torturado. “Ele não morreu na prisão, faleceu de um câncer, mas quem garante que esse câncer não nasceu ali, aquela prisão”, diz emocionado.

Vicente também foi preso por duas vezes, sendo detido por uma semana em cada uma delas. Uma das razões foi por ser um dos idealizadores do jornal “Presença”, que durou apenas três edições até ser completamente censurado e os responsáveis por sua publicação tiveram o mesmo destino: o BIB. “As prisões aconteciam da forma mais inusitada, podia estar apenas tomando um café e de repente encostava um miliar à paisana e pedia para entrar no carro”, conta.

Outro momento lembrado por Vicente foi o “Festival de Música do Umuarama”. “A gente se inscrevia sempre com músicas de protesto, mas só eram vitoriosas as músicas românticas. Um dia nos convidaram para compor o júri, aí demos nota zero para todas as concorrentes e dez apenas para a de protesto que queríamos de ganhasse”, se diverte o jornalista, lembrando de uma das poucas formas que tinham de se manifestar que não eram proibidas pela censura.

E assim seguiam nossos jovens, se encontrando na surdina para trocarem opiniões sobre o momento de opressão vivido em todo o país. Reuniões na casa de amigos, ensaios de teatro em terreiros espíritas (já que na cidade ninguém mais cedia espaço para os artistas depois do AI5), organizando excursões para a capital sempre que havia debates, estreia de peças, bienais ou manifestações da tropicália. Até que, na década de 80 o cenário começou a melhorar, Volta Redonda já tinha mais de nove grupos de teatro produzindo peças e Vicente foi eleito para a presidência do Gacemss. O teatro estava em construção há mais de 20 anos, e em setembro de 1981 foi finalmente inaugurado, com a peça “O Jogo das Contas de Vidro” do grupo de teatro de Bernardo, com atores do Rio. “Toda essa época foi um trabalho de resistência, inventando um espaço para respirar. As opções eram poucas: enlouquecer ou se alienar”, explana Vicente.

Dom Waldyr celebrando a missa do velório dos 3 funcionários da CSN mortos na greve de 1988.

A igreja era outro espaço de resistência, como os militares não podiam levar presos os religiosos que a ela se dedicavam, muitos encontros erar realizados na Cúria de Volta Redonda. Havia no local uma comissão de Direitos Humanos, organizada por três irmãs, que se reunia com frequência e ia em defesa dos crimes cometidos pelos militares na região. Dom Waldyr lembra do caso de três soldados que, por serem contra a ditadura, foram torturados e mortos no quartel de Barra Mansa. Pela luta dessa comissão, seus assassinos foram julgados, perderam suas patentes e foram presos.

“A igreja tem em seu calendário diversas celebrações anuais, uma delas é a Paixão de Cristo, que sempre era encenada no Estádio Raulino, para mais de 15 mil pessoas. Um ano eu quis fazer como uma denúncia, e fizemos um roteiro em que, todos os estágios da Paixão de Cristo faziam referência a episódios de torturas e perseguições que aconteciam bem aqui, na nossa cidade”, lembra Dom Waldyr. “Precisávamos dar coragem ao povo, mostrar que não podiam abaixar a cabeça diante de tudo que acontecia”, justifica.

Muitos dizem que os anos tenebrosos foram de 1968 a 1978, quando o AI5 estava em vigor. Mas um dos episódios mais violentos de nossa história, aquele que encerra nosso relato, aconteceu depois até do período da ditadura. Em 1988 foi realizada uma manifestação, com todo o apoio da Igreja, da sociedade civil e até da Prefeitura, em defesa dos operários mortos durante a greve.

“Brizola havia montado uma comissão especial para investigar os crimes da baixada. Dois membros desta comissão me procuraram depois desta manifestação e me alertaram ‘O sr. e o Prefeito de Volta Redonda estão condenados à morte, e o atentado será fora de Volta Redonda, para não despertar suspeitas, e vai parecer um acidente’. Liguei na hora para o secretário do prefeito e alertei”, relatou com exclusividade Dom Waldyr. Dois meses depois, o Prefeito, Juarez Antunes falecia em um acidente de automóvel, a caminho de Brasília. Desde então, Dom Waldyr parou de andar de carro. “Eu pegava o ônibus na Dutra, para que não fosse visto embarcando na rodoviária”. Encerrou emocionado “Passaram-se mais de quarenta anos para que eu pudesse estar contando isso pra você o que vivemos naquela época”.


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