O Desaparecimento da Infância

menina-mulher

Acabei de ler “O Desaparecimento da Infância”, de Neil Postman, para o meu Trabalho de Conclusão de Curso. Apesar de escrito na década de 70, o livro é assustadoramente atual.

Comecei a leitura pensando em encontrar respostas psicológicas sobre a influência da mídia nesse “novo” comportamento de nossas crianças: a descoberta cada vez mais cedo da sexualidade, o consumismo exacerbado e o fim das brincadeiras, principalmente as de rua.

Encontrei mais que isso. O autor divide o livro em duas parte: a primeira fala sobre o surgimento da infância, três séculos atrás, relacionando o fato com a invenção da prensa de Gutenberg, que posteriormente seria a responsável pela caracterização das crianças como os “não-alfabetizados”, forçando-os a passar pêra recém-criada escola como forma de transição da vida adulta.

Na segunda parte começa realmente o tema do livro, de como a infância, como foi concebida, está desaparecendo nos dias atuais (desde antes de 1970). Além da adultização da criança, Posman tocou em um ponto que eu não havia pensado: a infantilização do adulto. Exemplos são vários: quarentonas de mini-saia, executivos no Mac Donalds, adultos assistindo desenhos animados.

Para minha surpresa, ele fala mais da televisão do que eu esperava. Ele responsabiliza a TV pela criação de analfabetos funcionais, mais preocupados com a imagem do apresentador do que propriamente com a notícia que está sendo passada, diga-se de passagem, bem superficialmente. Não há contextualização da notícia, nem desdobramento ou continuidade. O telespectador é levado momentaneamente à emoção, logo apagada pela emoção da notícia seguinte. Não há digestão, não há reflexão. Com esta forma de apresentação da notícia na TV, crianças de sete anos já têm a mesma capacidade que os adultos de assimilar o conteúdo. Não há estímulo para reflexão, assim, adultos e crianças acabam por repetir (repito, da mesma forma) idéias pré digeridas, “amolecendo o músculo do pensamento” (Flávio Paiva – Jornalista, em “Criança, a Alma do Negócio”).

crianca_vendo_tv

Mas o que me deixou realmente assustada não foi isso. Os dados do analfabetismo funcional no Brasil eu já conhecia, e acreditem, está acima dos 50%. Primeiro vou contar o que me assustou no dia de hoje. Comecei a aplicação dos questionários para a pesquisa em crianças de 8 a 11 anos. A primeira pergunta era: “Quantas horas por dia você passa assistindo TV?” De uma turma de quase 30 alunos, dois responderam 13 horas, e um 15 horas! E os demais não ficaram muito longe disso não, não fiz a média, mas acredito que será próximo das 7 horas. Uma vez um médico que considero muito sábio me disse que devemos distribuir bem as horas dos nossos dias: 8 para as obrigações – trabalho, ou no caso deles o estudo; 8 para a socialização e diversão – relacionamentos interpessoais, brincadeiras, happy hour e até a televisão; e mais oito para a saúde – ou seja, o sono. Se 7 horas são gastas na TV, onde estão os relacionamentos? Onde estão as brincadeiras? Tenho até medo de pegar as respostas de “Você gosta mais de assistir TV ou de brincar?”

Mas o que me assustou no livro foi o crescimento dos índices de criminalidade entre as crianças. Ele relata um fato de uma menina de 12 anos que foi estuprada por três meninos: um de 15, um de 11 e um de 9. Nove anos! Quase chorei! Fora outras agressões, assaltos à mão armada, roubos de carro, invasões domiciliares… Difícil de compreender ou de explicar o que está acontecendo com o mundo.

Outro fato que merece destaque são as meninas de 8 anos aproximadamente. Indo para a escola maquiadas, até com sombra nos olhos. Fui à uma escola de periferia, onde a maioria das crianças não tem internet e só tem TV a cabo graças à GatoNet, e as meninas estavam maquiadas para uma aula às 7h da manhã. Eu sofri para acordar nesse horário! Quando eu tinha a idade delas eu ia para a escola com remela nos olhos e minha mãe tinha que brigar comigo para pentear meus cabelos! Elas assistem TV até meia-noite e acordam cedo para se maquiarem para assistir aulas. Comecei a me maquiar para ir às aulas este ano, porque senti os sinais da idade aparecendo nas minhas olheiras. Meus amigos até perguntam o que aconteceu e eu respondo “Tô virando menina”. Não que eu não seja vaidosa, procuro estar sempre com os cabelos arrumados e para trabalhar sempre me vestia bem. Agora essa coisa de meninas de 8 anos querendo parecer a Barbie, aliás, a Hannah Montana, é de assustar! Hannah Montana tem uma vida dupla e usa salto 12 aos 12 anos!

hannah_montana

Com a minha pesquisa, agora com as teorias de Piaget, descobri que a hierarquia de valores é uma coisa formada na criança entre os 7 e 12 anos. É justamente nessa idade que ela é bombardeada por mensagens publicitárias que implantam nelas os valores de mercado consumidor e as transformam nesses seres consumistas. Ela não sabe o porquê quer alguma coisa, só sabe que quer. Não define o motivo pela sua utilização prática, mas porque “viu na TV”, “o amiguinho tem”, “é legal ter”… Precisam consumir para pertencer a um grupo. A concepção de grupo também é assimilada nessa idade.

A minha infância já foi bastante influenciada pela TV, eu assistia o Chaves, pica-pau, she-há, TV Colosso… Mas eu também jogava Imagem e Ação, War, brincava de queimada, pique, bandeirinha… Eles nem sabem o que é isso. E quando digo para eles que eu não gosto de televisão e ainda brinco, que tenho jogos de tabuleiro, e até pique a gente brinca de vez em quando (eles não precisam saber que a cerveja acompanha), eles se assustam.

Muitos falam que a mãe não deixa brincar na rua. Entendo que pode ser perigoso, os pais não tem mais tempo de levar as crianças às praças e ficarem sentados no banco observando e conversando, mas deve haver alguma solução, como uma tarde de jogos de tabuleiro na casa do amiguinho, eu fazia isso também.

Para não me alongar mais, vou concluir. A leitura desse livro me deixou feliz com a infância que tive. Considerando que moro no interior e no Brasil, talvez a última geração de crianças felizes pelo conceito de infância (nos outros locais foi antes da minha) e reforcei ainda mais minha opinião: Nunca terei filhos!

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Sobre inconstantemente

Uma pessoa ainda perdida na vida, inconstante demais para se encontrar por conta própria, inconsequente demais para para fazer qualquer coisa certa... Apenas mais uma garota querendo ser lida e existir para o mundo! Ver todos os artigos de inconstantemente

6 respostas para “O Desaparecimento da Infância

  • Patricia

    Adorei o comentário sobre o texto do Postman…. também fiquei horrorizada com a infância de hoje…

  • Dart

    Gostei muito do seu comentário acerca do livro O desaparecimento da Infância. Também estou lendo ele ja que meu trabalho de conclusão de curso também fala da televisão…risos! Estou concluindo agora e depois de ver seu comentário aqui, até lamento não estar escrevendo em meu blog. Em outras épocas confesso que fui mais assídua a ele. Lembro que fiz tantas postagens legais sobre um intercâmbio feito através da universidade.
    é isso, prazer em conhecer o seu blog.

  • jaki

    hannah montana tem 16 anos se informa melhor pra falar das crianças como eu de 9 anos e eu uso salto,  a foto q vc botou da diva HM  e da 1 temporada e ja ta na terceira  acha q as crianças tem q i pra rua ñ conhece a realidade de hoje ñ? ? voltando a hannah os medicos dizem que a kids podem usar salto a partir dos 12 ANOS 12 ANOS!!! VAI BARRA eé alguma psicologa por acaso? E EU TO AKI PRA ME DEFENDER E DEFENDER AS MINHAS AMIGAS E A KIDS KI GOSTAM DE SI MAQUIAR VC Ñ FEZ ISSO PQ N~ KIS !!!!!!!!!!!!!!!!!!! E ISSO AI MANÍACAS POR SALTO !!!SOU SUA DEFENSORA DE 9 ANOS
    BYE

  • inconstantemente

    Triste comprovação de pra onde vai a infância de hoje em dia =~(

    • Josi

      Que pena garota que você tão nova tenha esse tipo de pensamento, uma coisa é certa quando você for uma quarentona sentirá falta de cada brincadeira infantil, e quanto ao salto terá que trabalhar muito para pagar um cirrurgião vascular para manter suas pernas lindas, tente aproveitar mais sua infância com brincadeiras de criança, deixe a arrogância para os 50, ou melhor para os 70 anos, se não vai ter que trabalhar muito para pagar os cirurgiões plásticos para melhorar sua cara, com essa idade você já se exalta assim, sorria, na sua inocencia sorrir é o melhor a fazer.

  • Josi

    Você está de parabéns pelo comentário a certa do livro de Postman, trabalho com crianças a 10 anos e fico horrorizada quando vejo notícias sobre o desaparecimento da infância, fase boa, linda, é uma pena que isto esteja acontecendo. Mas sigo os passos de nosso Senhor “PROTEJEI AS CRIANÇAS”. Que você realize outros trabalhos como este. Sorte e Deus te abençoe.

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