Pra quem não teve a oportunidade de ler no Volta Cultural de julho – com alguns trechos extras que não couberam:
Em 26 de junho celebra-se o Dia Internacional em Apoio às Vitimas de Tortura, instituído pela ONU em 1987. Mesmo assim o Brasil levou mais 10 anos para caracterizar em seu código penal a lei que define a tortura como crime, mas todos os dias pessoas ainda são torturadas física e psicologicamente, indo contra a lei e contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), adotada pelos países ligados à ONU em 10 de dezembro de 1948. A história contada a seguir é relacionada com essas datas e tem como ponto alto a comemoração de 20 anos desta declaração. O cenário é a região Sul Fluminense, principalmente Barra Mansa e Volta Redonda; e os personagens, são atores, atrizes, religiosos, jornalistas… sobretudo cidadãos, inconformados com o desrespeito, abuso e privação impostos pela Ditadura Militar que vigorava na época.
Volta Redonda e Barra Mansa eram áreas de segurança nacional, pela presença da CSN na primeira e de um BIB (Batalhão de Infantaria Blindada) na segunda. Por serem cidades pequenas, a fiscalização e perseguição eram intensas. Os que pensavam diferente e agiam contra o governo imposto eram escoltados por veículos aparentemente civis, mas com militares em seu interior, que vigiavam onde iam, com quem falavam, o que faziam e a que horas voltavam para casa. Nessa época o teatro na região era fraco, até que um grupo de jovens decidiu unir a arte ao manifesto e encenar “Liberdade, Liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel.
Entre esses jovens, Bernardo Maurício (diretor de teatro até os dias de hoje) e Vicente Melo (atualmente jornalista da Fundação de Cultura de Barra Mansa). Vicente lembra que “assim começou a fermentar o bolo cultural da região, éramos um grupo de pessoas que nos encontrávamos não por objetivos individuais, mas sociais e culturais”. Grupo que já começou a sofrer as perseguições do exército. Para surpresa de todos, a peça foi aprovada pela censura, com restrição em alguns trechos. “Mas a gente não quis nem saber, encenou a peça completa”, revela Bernardo.
Com o talento e ousadia desses jovens, logo chamaram a atenção de um ícone regional dos Direitos Humanos, o Bispo Dom Waldyr – que havia chegado à cidade em 1966. Um grupo de bispos do Brasil decidiu realizar em 1968 uma celebração dos 10 anos da DUDH. Concomitantemente, um funcionário da CSN, com nove filhos, se vendo incapaz de sustentar a família, suicidou-se pulando no alto-forno principal da companhia. O episódio foi transformado em um monólogo, conhecido como “Zé do Forno”, representado na celebração por Bernardo maurício. “Queríamos mostrar como os direitos humanos eram desrespeitados de tal forma, que levavam um cidadão a acabar com a própria vida”, justifica D. Waldyr.
O palco foi o teatro Santa Cecília. “Havia aproximadamente 350 pessoas na celebração, mas praticamente era 50% era da imprensa, inclusive internacional, e a outra metade eram militares vigiando e registrando”, lembra Vicente. Além do “Zé do Forno”, Bernardo e Vicente representaram trechos do “Liberdade, Liberdade”. Dias depois, entra em vigor o temido AI5, que privou tantos da liberdade, entre eles nossos protagonistas. Bernardo foi preso em janeiro de 1969, em um passeio pelas ruas de Volta Redonda. Levado ao BIB, foi perguntado se sabia o porquê estava ali. “Eu não fazia ideia, foi quando me apresentaram uma pasta com imagens da celebração e me contaram que eu estava preso por ter feito parte daquilo”.
Bernardo conta que ficou preso por 67 dias, passou por 30 interrogatórios, mas não sofreu tortura física, apenas psicológica. “A maior tortura pra mim foi a privação da leitura, eu lia todos os dias”. Ele conta que, o teatro foi seu grande refúgio na carceragem, ele era capaz de deixar a imaginação fluir. “Eu brincava que era um fantasma da noite e assustava os sentinelas”, revela. Ele foi um dos últimos a serem solto, liberado antes apenas do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da época, Wilton Meira. Para ser preso, bastava ser suspeito, Bernardo conta o caso de seu irmão que foi preso no dia do casamento, que não era nem envolvido com a resistência à ditadura, mas pelo fato de ser seu irmão e de estudar no Rio já foi motivo para ser levado e torturado. “Ele não morreu na prisão, faleceu de um câncer, mas quem garante que esse câncer não nasceu ali, aquela prisão”, diz emocionado.
Vicente também foi preso por duas vezes, sendo detido por uma semana em cada uma delas. Uma das razões foi por ser um dos idealizadores do jornal “Presença”, que durou apenas três edições até ser completamente censurado e os responsáveis por sua publicação tiveram o mesmo destino: o BIB. “As prisões aconteciam da forma mais inusitada, podia estar apenas tomando um café e de repente encostava um miliar à paisana e pedia para entrar no carro”, conta.
Outro momento lembrado por Vicente foi o “Festival de Música do Umuarama”. “A gente se inscrevia sempre com músicas de protesto, mas só eram vitoriosas as músicas românticas. Um dia nos convidaram para compor o júri, aí demos nota zero para todas as concorrentes e dez apenas para a de protesto que queríamos de ganhasse”, se diverte o jornalista, lembrando de uma das poucas formas que tinham de se manifestar que não eram proibidas pela censura.
E assim seguiam nossos jovens, se encontrando na surdina para trocarem opiniões sobre o momento de opressão vivido em todo o país. Reuniões na casa de amigos, ensaios de teatro em terreiros espíritas (já que na cidade ninguém mais cedia espaço para os artistas depois do AI5), organizando excursões para a capital sempre que havia debates, estreia de peças, bienais ou manifestações da tropicália. Até que, na década de 80 o cenário começou a melhorar, Volta Redonda já tinha mais de nove grupos de teatro produzindo peças e Vicente foi eleito para a presidência do Gacemss. O teatro estava em construção há mais de 20 anos, e em setembro de 1981 foi finalmente inaugurado, com a peça “O Jogo das Contas de Vidro” do grupo de teatro de Bernardo, com atores do Rio. “Toda essa época foi um trabalho de resistência, inventando um espaço para respirar. As opções eram poucas: enlouquecer ou se alienar”, explana Vicente.

Dom Waldyr celebrando a missa do velório dos 3 funcionários da CSN mortos na greve de 1988.
A igreja era outro espaço de resistência, como os militares não podiam levar presos os religiosos que a ela se dedicavam, muitos encontros erar realizados na Cúria de Volta Redonda. Havia no local uma comissão de Direitos Humanos, organizada por três irmãs, que se reunia com frequência e ia em defesa dos crimes cometidos pelos militares na região. Dom Waldyr lembra do caso de três soldados que, por serem contra a ditadura, foram torturados e mortos no quartel de Barra Mansa. Pela luta dessa comissão, seus assassinos foram julgados, perderam suas patentes e foram presos.
“A igreja tem em seu calendário diversas celebrações anuais, uma delas é a Paixão de Cristo, que sempre era encenada no Estádio Raulino, para mais de 15 mil pessoas. Um ano eu quis fazer como uma denúncia, e fizemos um roteiro em que, todos os estágios da Paixão de Cristo faziam referência a episódios de torturas e perseguições que aconteciam bem aqui, na nossa cidade”, lembra Dom Waldyr. “Precisávamos dar coragem ao povo, mostrar que não podiam abaixar a cabeça diante de tudo que acontecia”, justifica.
Muitos dizem que os anos tenebrosos foram de 1968 a 1978, quando o AI5 estava em vigor. Mas um dos episódios mais violentos de nossa história, aquele que encerra nosso relato, aconteceu depois até do período da ditadura. Em 1988 foi realizada uma manifestação, com todo o apoio da Igreja, da sociedade civil e até da Prefeitura, em defesa dos operários mortos durante a greve.
“Brizola havia montado uma comissão especial para investigar os crimes da baixada. Dois membros desta comissão me procuraram depois desta manifestação e me alertaram ‘O sr. e o Prefeito de Volta Redonda estão condenados à morte, e o atentado será fora de Volta Redonda, para não despertar suspeitas, e vai parecer um acidente’. Liguei na hora para o secretário do prefeito e alertei”, relatou com exclusividade Dom Waldyr. Dois meses depois, o Prefeito, Juarez Antunes falecia em um acidente de automóvel, a caminho de Brasília. Desde então, Dom Waldyr parou de andar de carro. “Eu pegava o ônibus na Dutra, para que não fosse visto embarcando na rodoviária”. Encerrou emocionado “Passaram-se mais de quarenta anos para que eu pudesse estar contando isso pra você o que vivemos naquela época”.
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